Wednesday, July 01, 2009
Tuesday, March 24, 2009
UM PRIVILEGIADO
Diariamente dirigia-me ao pequeno atelier do pintor Eugênio Proença Sigaud, em Copacabana, para vê-lo pintar e discorrer impressões de seus colegas artistas.
Lá chegara pelo gosto pela Arte, herança da minha mãe, somado à facilidade de acesso que a atividade de jornalista me dava.
Surgida à oportunidade de vir a ter minha própria galeria, num sobrado da Praça General Osório, em Ipanema, propus ao Sigaud ser ele o artista expositor da inauguração da B-75 Concorde Galeria de Arte.
Proposta aceita, o "pintor dos operários" de traços vigorosos e temas sociais atraiu para o espaço da galeria mais de uma centena de convidados da alta burguesia. Um sucesso de público e de vendas incomuns, com todos os quadros vendidos tão logo aberta a mostra, cuja apresentação foi feita pelo crítico Frederico Morais.
Assim nasceu a galeria que por quase 30 anos dirigi, com poucas exposições realizadas, mas sempre prestigiada pelo grande público que lotava as salas de leilões dos mais importantes hotéis do Rio de Janeiro, onde foram vendidas milhares de obras de arte e antiguidades que hoje enriquecem acervos dos maiores colecionadores brasileiros.
A condição de marchand aproximou-me de alguns mestres. Com outros já convivia pela atividade de jornalista, como foi o caso de Di Cavalcanti e Cícero Dias, duas personalidades marcantes. Observava-os, imaginando a amizade que os unia, apesar de temperamentos tão distintos. Assim me parecia.
Tive o prazer do convívio com importantes artistas de duas gerações. Alguns mais próximos que outros: Milton Dacosta, Maria Leontina, Agostinelli, Emeric Marcier, Francisco Stockinger, Bruno Giorgi, Amílcar de Castro, Eduardo Sued, Tobias, Quaglia, Kaminagai, Vera Tôrres, Quirino Campofiorito, Iberê Camargo, Bandeira de Melo, Melinda Garcia, Gerchman, Inimá, Floriano Teixeira, Isolda, Weellington Virgolino, Silvio Pinto, Newton Rezende, Ceschiatti, Antônio Bandeira, Scliar, Jenner Augusto, Albery, Romeo De Paoli, Heraldo Pedreira, Augusto Rodrigues, Roberto Magalhães, Benjamin Silva, GTO, Carybé, Saldanha, Rosina Becker do Valle, Jacintho Moraes, Frank Schaeffer, Emanoel Araújo, Brennand, Iberê, Lazzarini, Laerpe Motta, Ivan Freitas, Mabe, Kazuo Iha, Mario Mendonça, Orlando Brito, Juarez Machado, Jenner, Satyro Marques, Abraham Palatinik, Adelson do Prado, Quirino Campofiorito, Aurélio DAlincourt, Wakabayashi, Iaponi Araujo, Holmes Neves, Joâo Câmara, Rodrigo de Haro, Francisco Meireles, Ivan Marquetti, Haydéa, Antônio Maia, Francisco Oswald, Paiva Brasil, OrlandoTeruz, Geraldo Castro, Romanelli, Rubem Ludolf, Maria Pólo, José Maria de Souza, Siron, Manoel Santiago, Rogério Teruz, Adilson Santos, Roberto de Souza, Rapoport, Bracher, Rubem Valentim, Loio Pérsio, Bianco, Sérgio Telles, Bustamante Sá, Sorensen, Armando Vianna, Ângelo de Aquino...
Posso dizer-me um privilegiado.
Saturday, November 08, 2008
UM RIO DE MUITAS SAUDADES
Dizer que sou saudosista me envaidece. Afinal, sou do pão do tostão, moeda da qual muitos dos que me lêem sequer ouviram falar. Adquiridos numa das muitas fornadas na Padaria Colombo, cujo proprietário português misturou a História e resolveu homenagear o descobridor do Brasil. Mas se misturou a História, justiça seja feita, na farinha não havia bromato.
Era um Rio sem pressa, com bondes da Light cujos trilhos vivem sepultos pelo asfalto por onde hoje vidas se perdem na velocidade por vivê-las. Mas como as diferenças sociais sempre existiram, não seria este meu Rio de viva memória que deixaria de ter o ''taioba'', um bonde misto de preço bem mais barato, transportando, além dos passageiros, os balaios de verduras, frutas e flores que iam sendo distribuídas durante o percurso. Para os mais afortunados, a Light oferecia seus ônibus cinza competindo com as primeiras viações que surgiam para começar a dar pressa à vida dos cariocas.
Era um Rio sem pressa, com bondes da Light cujos trilhos vivem sepultos pelo asfalto por onde hoje vidas se perdem na velocidade por vivê-las. Mas como as diferenças sociais sempre existiram, não seria este meu Rio de viva memória que deixaria de ter o ''taioba'', um bonde misto de preço bem mais barato, transportando, além dos passageiros, os balaios de verduras, frutas e flores que iam sendo distribuídas durante o percurso. Para os mais afortunados, a Light oferecia seus ônibus cinza competindo com as primeiras viações que surgiam para começar a dar pressa à vida dos cariocas.
Violento, afirmo, não era. De pior, tínhamos o Zé da Ilha, inimigo público número 1, cujo crime maior fora ter aberto uma navalha e passado nas pernas dos passageiros que viajavam no estribo do bonde ''Vila Isabel''. O feito teve como palco o Boulevard, hoje Avenida 28 de Setembro, cuja data, confesso, não me traz nenhuma lembrança.
Imagino que nem tenham sido muitos os estragos feitos por Zé da Ilha, afora uma e outra calça dos ternos de casimira inglesa, tropical brilhante ou linho S-120 que, passadas nas mãos de uma boa cerzideira invisível, não tenham sido recuperadas. Zé da Ilha morreu numa troca de tiros com a polícia, à época de boa pontaria, pois não houve registro de bala perdida e achada no corpo de alguém.
Saudades de um Rio de casarões cercados de pomares, com mangas rosa, espada e carlotinha, entre goiabeiras, caramboleiras, abacateiros, nespereiras, abieiros e sapotizeiros, por onde esvoaçavam pardais e rolinhas de dia ou morcegos à noite.
Um Rio perfumado pelos jardins onde floriam jasmins e roseiras.
Um Rio com o mar de Copacabana, aonde chegávamos para os banhos medicinais que complementavam tratamentos homeopáticos, depois de saciados pelo suco de laranja da "Americana", do Hotel Avenida.
De ruim, a bem da verdade, os maiôs de malha de lã a formarem papadas nas entre pernas das banhistas.
Um Rio de um Salgueiro, de onde saiu Bala, compositor e engraxate, a batucar com o pano que lustrava nossos sapatos os sambas que cantarolava.
De uma Mangueira, cujo marco era o Esqueleto, onde hoje é o campus da UERJ, no Maracanã. Mangueira que deu Cartola, Neuma e Zica.
Era um Rio horizontal, inundado de sol e chuva. Havia lama barrenta, mas bem diferente do mar que hoje nos assusta inundando os altos escalões dos governos.
ROSÁRIO

I
DOLOROSOS
O bar está ali há tanto tempo que nem importa saber sua idade. Surgiu com a cidade. Discretamente, de um ângulo privilegiado da praça, frente à porta lateral da igreja, a tudo observa. As paredes, grossas de sucessivas pinturas, contam a cada camada histórias de diferentes épocas e proprietários. Duas portas de madeira carcomida, fechadas respeitosamente diante de incontáveis enterros e procissões, deixam entrever o interior escuro e abafadiço.
Assim que os olhos do visitante se acostumam à penumbra, revela-se um enorme balcão, igualmente sem idade, estendido junto ao fundo e a uma das paredes laterais. Ao longo da outra parede, cinco ou seis mesas bambas com suas cadeiras de assentos lustrados pelos freqüentadores que se reúnem nos finais de tarde em comentários sobre as nunca mais de duas ou três raparigas do bordel de madame Dominique, uma polaca que por ali chegara fugida das botas nazistas lá pelos anos 30.
A parca iluminação não esconde o pó e o bolor das prateleiras, repletas de um amontoado de garrafas e copos engordurados. Atrás da máquina registradora, uma pequena imagem de Nossa Senhora Aparecida e o pôster do Palmeiras Campeão Paulista de 1976 disputam, lado a lado, as homenagens das flores de plástico dentro do copo. Os segundos de pouco silêncio eram quebrados pelo irritante tic-tac do carrilhão que devorava as horas dos bêbados obrigados ao retorno do tédio domiciliar, com as mesmas reclamações seculares de que “aquilo não era vida”.
O cheiro das frituras engorduradas nada dizia de que fossem bons os tira-gostos que ainda assim eram consumidos por um ou outro desavisado operário que por lá passasse a caminho das obras que teimavam em tentar fazer crescer a pequena São Benedito do Bom Refúgio, nascida do parto das fugas dos escravos, seus primeiros moradores que por lá se escondiam.
Sentado numa daquelas mesas, protegido pelo lusco-fusco, um observador atento poderia fazer a crônica diária da cidade: qual beata está adoentada e não compareceu à missa das sete; que cidadão embarcado no ônibus das sete tem negócios a tratar na capital; quanto tempo durou a confissão da mulher do prefeito; qual será a próxima geração de boêmios que flana pela praça, matando as aulas; todos os casamentos, batizados e enterros.
E, quando as pequenas corujas deixam a torre do sino, quais os incautos casais que trocam trêmulos beijos nos desvãos das paredes da igreja zelosamente cuidada pelo Padre Cartazone, um italiano cinquentão que, diziam as más línguas, pastoreava duas ovelhas Filhas de Maria, na sacristia.
É ali, instalado na última mesa, que Dozinho resiste. Só ali a tranqüilidade para olhar e, ultimamente, para escrever, antes que a procissão dos bêbados e miseráveis se interrompa na ocupação das mesas e nas solicitações gritadas e atendidas imediatamente por Oriovaldo, o garçom, sob o olhar fiscalizador do seu Almeida, da segunda geração de proprietários.
Os humores de Aracy começam a atrapalhar os pensamentos de Dozinho. Os deles, mesmo, e os dela, própria. Aracy delira. “Quanto será que custa um sino de bronze da Itália, Dozinho?” Ora, veja... “Quanto você acha que vale o terreno do bar, Dozinho?” Tem cabimento? Deve ser a idade. Deve ser porque não tivera filhos. Útero seco, o dela. O dele, não. O dele é um útero quente e fértil: a mesa do bar.
Dozinho se integra ao ambiente pela cor mortiça, palidez pela constância dos dias que no bar se perde, bambo como as cadeiras nas seguidas idas ao mictório por ingestão das garrafas de cerveja que lhe faz, ainda, embotado na conclusão do romance com o qual a todos diz ganhará a notoriedade literária.
Dozinho só desprega o olhar das páginas que trazem a inutilidade dos seus pensamentos para o copo ou para um evento ou outro, muito raros por sinal, que traga maior movimentação à praça.
Tantos projetos perdidos no achado de Aracy; num casamento que o levara parte da vida ao caminhar entre as duas monotonias, da casa e do bar. Casa e bar? Mas se foram tantas às vezes que se confundiram sobre a melhor ou pior acolhida.
Histórias perdidas em soluços de embriaguez. Confusas histórias intermináveis, assim como sua própria vida que lhe parecia não vir a ter desfecho. E a obsessiva curiosidade de Aracy aos valores que nada lhe diziam.
Temia vir a se tornar uma figura folclórica da cidade, como a Maria Benzedeira ou o João do Sebo, este por confundido pelos mal informados como dono do açougue e, na verdade, dono da papelaria, onde, a um canto, amontoavam-se volumes desprezados, com suas páginas consumidas mais pelos cupins do que pelos olhos de seus antigos donos.
Havia, como dona Adelaide Maria, misto de mulher letrada e do lar, um ou outro que não aceitavam vulgos que não se enquadrassem aos hábitos e costumes daquela pequena cidade interiorana e para os quais João era João, sem o Sebo. Mas isso é outra história que não desmerece o folclore que abundava a região, enriquecido pelos ditos, benditos e malditos do que aqui vai narrado.
Já não eram mais perguntas, mas verdadeiro martírio a curiosidade de Aracy. Aquilo o desconcentrava e na linha que estivesse por ali parava. E não voltava ao texto, posto numa acumulação de calhamaços, fruto da perda da tranqüilidade que imaginara encontrar na mesa do bar, seu quente útero, já agora nem sempre fértil, ainda que úmido pelas garrafas esvaziadas à sua frente.
Dali se distanciava ao final de cada tarde, respondendo aos cumprimentos com um toque no chapéu desabado como sua própria vida.
A crença de Dozinho na fama que conquistaria pelas letras levava-o a imaginar-se numa estátua ou mesmo que fosse num busto de bronze como o de Graciliano Ramos, próximo ao palanque de onde vinham os sons nas domingueiras da praça, trazendo junto os perfumes das senhoras e senhoritas no ir e vir pela calçada em frente ao bar a misturar-se aos dos jasmineiros, aqui e ali despontados pelo carinho de Josenildo, o orgulhoso jardineiro que cuidava para que o Pau Brasil fosse sempre lembrado pelas mais afoitas.
.
Mas para tanto, dizia Dozinho, duas coisas teriam que ser terminadas, ambas de desfechos imprevisíveis: o romance e sua própria vida.
Próximo de poder ser titulado autor e lá vinha o massacre de Aracy: "Dozinho, quanto terá custado o funeral de seu Sidônio?" E mais uma vez interrompia a página do romance, ainda que chegando às letras como o personagem que alimentou essa história.
II
GLORIOSOS
– Dozinho!
O grito ecoa no quarto como um trovão. Abre um olho e lá está Aracy a sacudir a folha de papel. Abre um olho, já que os dois seria impossível pela carraspana da véspera.
– Levanta homem de Deus... Finalmente chegou a resposta da editora, junto com o contrato.
Ora, isso lá é jeito de acordar alguém? Contrato, que contrato? Mas Aracy estava ali sacudindo a folha de papel qual bandeira agitada num estranho festival... Quem dissera isso? Ah, sim, Orestes Barbosa, em “Chão de Estrelas”, tantas vezes tocada na máquina de moedas no fundo do bar, o palco sem lume dos andrajosos freqüentadores quase todos sustentados por suas mulheres fiandeiras da cooperativa de artesanato.
Lá fora, na rua, a notícia já chegara e um grupo aguardava na porta sua aparição.
– Vá lá Dozinho, dê apenas um aceno para eles. Não imagina o que isso vai representar para a nossa cidade. Quem sabe seu romance vira roteiro em Hollywood? Não viu o Paulo Coelho?
Mas como? De pijama?... Cabelos em pé, nem mesmo os dentes escovados e aquele gosto de guarda-chuva na boca... Ah, coisa mais idiota, como se alguém já o tivesse chupado.
A menção do Paulo Coelho encheu-o de brios. Comparar o seu romance aos do autor de O Alquimista era não reconhecer seus méritos literários. Que se danasse Hollywood... Qual obra de Machado de Assis merecera as atenções dos produtores e diretores hollywoodianos?
Jogou por cima do pijama o paletó de tantos invernos e quase empurrado por Aracy chegou à janela. Lá estava Alaíde Camargo, mulher faladeira, Antônio Dentinho, Maruê Lagartixa, tido como dos melhores no pau de sebo das quermesses, sem falar na fina flor da boemia local, espantosamente sóbria puxada pelos vivas de Chico Bolha. Era de se esperar que a glória chegasse, tantos foram os repasses dados a obra.
– Dois milhões, Dozinho, ouviu bem, dois miiiiiiiiiiiiilhões!
Os milhões na boca de Aracy se tornavam maiores ainda. Havia, finalmente, embarcado nos delírios dela! Sabia que chegaria o momento em que, sendo o inimigo mais forte, se renderia a ele – Corrumpunt bonos mores colloquia mala, latinou, capitulando.
E como lhe pareciam reais aquelas fisionomias conhecidas, ao pé de sua janela. Não seria também real o jacaré que morava embaixo da cama de Chico Bolha e que o recebia todas as madrugadas, na volta da esbórnia? Tudo é possível, tudo é plausível, tudo é real, até aquelas pétalas que o pequeno grupo lhe atirava.
Recuou três passos e imediatamente se arrependeu. Melhor estava encarando a platéia que as chispas verdes dos olhos pequeninos de Aracy. Claro, ela sempre soubera, o talento dele era insofismável (caprichava nas palavras, a bruaca); fizera bem em contrariar o pai e casar-se com ele (arrependia-se de não ter ouvido o sogro – é minha filha, mas é uma megera); finalmente a honra e a glória que ele merecia (até babava-se de tanto gosto, a vaca).
Alisou a gola do paletó e extraiu do fundo de sua inapetência as palavras jamais escandidas:
– Aracy, eu vou ao bar...
Esfregava-lhe na cara uma redondilha maior, vingança suprema de tantos anos em que ela, alexandrinamente, lhe atirara, certeira, seu nome de solteira – Aracy Aparecida Gomes da Cruz.
– Claro, vamos, sim, meu... Meu... Meu imortal!
Voltou à janela, magnânimo, acenou, deu as costas e desceu as escadas, casaco puído e calças de pijama (ora, já não havia saído nu da cintura pra baixo do quarto de Isolda Bela Puta em tempos de vou-tirar-você-deste-lugar?).
Recuperava um pedaço de si mesmo a cada passo vencido entre a casa e o bar. Atrás dele, a “turba ímpia e nojosa” e, no meio dela Aracy, com agilidade de menina, organizava uma ação entre amigos para a compra do fardão da Academia.
Mas como fardão, se nem candidato se lançara?
– Dozinho, quanto deve custar o fardão?
Nem mesmo a futura imortalidade o poupava da curiosidade de Aracy com relação a custos, fossem do que fossem.
Nos tempos de Sarney na Presidência da República, ela ganhara fama a perguntar sobre preços, imbuída da condição de “fiscal”... Ah, sim, Sarney, agora seu futuro companheiro dos chás de quinta-feira... E aumentaram-lhe os suores na lembrança dos chás. Refrescou-se com duas cervejas, em sucessivos brindes do Chico Bolha. Agora já não eram os chás quintafeirinos que o aqueciam, era a idéia do fardão de casimira.
– Levanta homem e larga de vagabundagem... O sol está quente lá fora e você enrolado nesse cobertor.
Dois olhos abertos, chegou-se à janela. A praça vazia pelo sol causticante abrigava o sono de Chico Bolha em um dos bancos do jardim.
– Aracy, eu vou ao bar.
III
GOZOSOS
É noite, novamente. Dozinho espia por entre a escuridão do bar o movimento da praça – Sexta-Feira da Paixão, logo a Procissão do Senhor Morto iria serpentear pelas ruas da cidade, as velas enroladas em celofane colorido teimando em espalhar espermacete nas delicadas mãos das Filhas de Maria; a matraca alternando o silêncio. O dia todo ali, refugiado, sem pronunciar palavra. Não ousava dizer mais nada depois da frase proferida pela manhã. Percebia agora a inutilidade de todas elas, todas as palavras careciam de sentido, tudo já estava escrito, tudo havia sido dito. Sem sequer abrir a boca tinha-lhe sido servida a bebida de sempre, garantira a mesma conversa recortada – o levantar de uma sobrancelha era o suficiente.
O dia todo ali, pregado àquela mesa. Não comia, não falava, não escrevia, não mijava – e isto era verdadeiramente espantoso, levando-se em conta as garrafas de cerveja que se acumulavam no canto da parede. Havia, finalmente, voltado à sua condição intra-uterina, boiava em meio ao burburinho, cenas fortuitas eram percebidas de relance, como o olhar pasmado de Chico Bolha ao testemunhar o apelo inédito e impensável de Aracy, pousando a mão em seu ombro – “Vamos para casa, Dozinho”. Deu de ombros para o companheiro, fixou-se no bater dos saltinhos baixos da mulher esquadrinhando com passos curtos não mais a volta para casa, mas para um caminho nunca dantes percorrido para perfilar-se a Procissão do Senhor Morto.
O dia todo ali e, subitamente, uma voz o arrancava de seu torpor. O trabalho de parto, iniciado pela manhã e entrado pela noite, agudizava-se. No púlpito improvisado em frente à Matriz, Verônica canta, rosto encoberto. Uma odalisca, essa Verônica – ensaiava uns passos da dança do ventre entre um “o Vós omnes” e outro, o véu escorrendo face abaixo.
Quebrantado pela lengalenga, levanta-se e segue o chamamento. "Eloì, Eloì, lema sabactàni?"
Entra na igreja, altar desnudo, santos cobertos apaixonadamente de roxo, o cheiro do jejum, do fracasso, da tristeza e do silêncio. Abstinência da palavra, porto da palavra, liturgia da palavra, das sete palavras.
Bruxuleava.
Da porta principal vê entrar o corpo do Senhor Morto, ladeado de todas as mulheres que fazem fila para lhe beijar os pés. Atrás da coluna espera que chegue a vez de Alaíde Camargo e precipita-se após o ósculo. Embriagado pelas velas e pelo silêncio, longamente “beija o beijo, não os pés”.
Não estivesse o Senhor Morto, nem mesmo ele escaparia do sobressalto diante dos repentinos arroubos de Dozinho, atracado, a pespegar beijos obscenos na faladeira Alaíde Camargo, que passou de flecha a alvo sob os olhares de mais de centena de fiéis e outro tanto de infiéis, todos agora testemunhas de uma paixão por tantos anos mantida em segredo.
Todos não. Menos Aracy, fulminada por colapso, morta na fila do Senhor Morto.
Dozinho, transfigurado, é tirado dos pés de Cristo sob o ronco de trovões que desciam dos céus, pragas e “te esconjuros” das beatas que a essa altura se acotovelavam na nave para testemunhar tamanha heresia. Instalara-se a balbúrdia na noite sacra, coisa nunca vista.
– Está tomado por satanás...
A frase passava de boca a boca, seguida de “cruz credos” e “benza Deus”, algumas já em aconselhamentos de que fosse coberta a cabeça de Cristo. E motivo havia pra isso.
Aos empurrões é retirado da Matriz. Lá fora esbarra nos vivas de Maruê Lagartixa e Chico Bolha já fora do banco da praça que lhe acolhia o sono.
Fechava-se assim o romance da vida de Dozinho, em gozos de embriaguez, naquela sexta-feira de dupla paixão – e morte – ampliada ainda mais por dona Afrodite Augusta Nogueira, mulher de Chico Bolha, que disse ter visto o Senhor Morto a piscar para Dozinho.
DOLOROSOS
O bar está ali há tanto tempo que nem importa saber sua idade. Surgiu com a cidade. Discretamente, de um ângulo privilegiado da praça, frente à porta lateral da igreja, a tudo observa. As paredes, grossas de sucessivas pinturas, contam a cada camada histórias de diferentes épocas e proprietários. Duas portas de madeira carcomida, fechadas respeitosamente diante de incontáveis enterros e procissões, deixam entrever o interior escuro e abafadiço.
Assim que os olhos do visitante se acostumam à penumbra, revela-se um enorme balcão, igualmente sem idade, estendido junto ao fundo e a uma das paredes laterais. Ao longo da outra parede, cinco ou seis mesas bambas com suas cadeiras de assentos lustrados pelos freqüentadores que se reúnem nos finais de tarde em comentários sobre as nunca mais de duas ou três raparigas do bordel de madame Dominique, uma polaca que por ali chegara fugida das botas nazistas lá pelos anos 30.
A parca iluminação não esconde o pó e o bolor das prateleiras, repletas de um amontoado de garrafas e copos engordurados. Atrás da máquina registradora, uma pequena imagem de Nossa Senhora Aparecida e o pôster do Palmeiras Campeão Paulista de 1976 disputam, lado a lado, as homenagens das flores de plástico dentro do copo. Os segundos de pouco silêncio eram quebrados pelo irritante tic-tac do carrilhão que devorava as horas dos bêbados obrigados ao retorno do tédio domiciliar, com as mesmas reclamações seculares de que “aquilo não era vida”.
O cheiro das frituras engorduradas nada dizia de que fossem bons os tira-gostos que ainda assim eram consumidos por um ou outro desavisado operário que por lá passasse a caminho das obras que teimavam em tentar fazer crescer a pequena São Benedito do Bom Refúgio, nascida do parto das fugas dos escravos, seus primeiros moradores que por lá se escondiam.
Sentado numa daquelas mesas, protegido pelo lusco-fusco, um observador atento poderia fazer a crônica diária da cidade: qual beata está adoentada e não compareceu à missa das sete; que cidadão embarcado no ônibus das sete tem negócios a tratar na capital; quanto tempo durou a confissão da mulher do prefeito; qual será a próxima geração de boêmios que flana pela praça, matando as aulas; todos os casamentos, batizados e enterros.
E, quando as pequenas corujas deixam a torre do sino, quais os incautos casais que trocam trêmulos beijos nos desvãos das paredes da igreja zelosamente cuidada pelo Padre Cartazone, um italiano cinquentão que, diziam as más línguas, pastoreava duas ovelhas Filhas de Maria, na sacristia.
É ali, instalado na última mesa, que Dozinho resiste. Só ali a tranqüilidade para olhar e, ultimamente, para escrever, antes que a procissão dos bêbados e miseráveis se interrompa na ocupação das mesas e nas solicitações gritadas e atendidas imediatamente por Oriovaldo, o garçom, sob o olhar fiscalizador do seu Almeida, da segunda geração de proprietários.
Os humores de Aracy começam a atrapalhar os pensamentos de Dozinho. Os deles, mesmo, e os dela, própria. Aracy delira. “Quanto será que custa um sino de bronze da Itália, Dozinho?” Ora, veja... “Quanto você acha que vale o terreno do bar, Dozinho?” Tem cabimento? Deve ser a idade. Deve ser porque não tivera filhos. Útero seco, o dela. O dele, não. O dele é um útero quente e fértil: a mesa do bar.
Dozinho se integra ao ambiente pela cor mortiça, palidez pela constância dos dias que no bar se perde, bambo como as cadeiras nas seguidas idas ao mictório por ingestão das garrafas de cerveja que lhe faz, ainda, embotado na conclusão do romance com o qual a todos diz ganhará a notoriedade literária.
Dozinho só desprega o olhar das páginas que trazem a inutilidade dos seus pensamentos para o copo ou para um evento ou outro, muito raros por sinal, que traga maior movimentação à praça.
Tantos projetos perdidos no achado de Aracy; num casamento que o levara parte da vida ao caminhar entre as duas monotonias, da casa e do bar. Casa e bar? Mas se foram tantas às vezes que se confundiram sobre a melhor ou pior acolhida.
Histórias perdidas em soluços de embriaguez. Confusas histórias intermináveis, assim como sua própria vida que lhe parecia não vir a ter desfecho. E a obsessiva curiosidade de Aracy aos valores que nada lhe diziam.
Temia vir a se tornar uma figura folclórica da cidade, como a Maria Benzedeira ou o João do Sebo, este por confundido pelos mal informados como dono do açougue e, na verdade, dono da papelaria, onde, a um canto, amontoavam-se volumes desprezados, com suas páginas consumidas mais pelos cupins do que pelos olhos de seus antigos donos.
Havia, como dona Adelaide Maria, misto de mulher letrada e do lar, um ou outro que não aceitavam vulgos que não se enquadrassem aos hábitos e costumes daquela pequena cidade interiorana e para os quais João era João, sem o Sebo. Mas isso é outra história que não desmerece o folclore que abundava a região, enriquecido pelos ditos, benditos e malditos do que aqui vai narrado.
Já não eram mais perguntas, mas verdadeiro martírio a curiosidade de Aracy. Aquilo o desconcentrava e na linha que estivesse por ali parava. E não voltava ao texto, posto numa acumulação de calhamaços, fruto da perda da tranqüilidade que imaginara encontrar na mesa do bar, seu quente útero, já agora nem sempre fértil, ainda que úmido pelas garrafas esvaziadas à sua frente.
Dali se distanciava ao final de cada tarde, respondendo aos cumprimentos com um toque no chapéu desabado como sua própria vida.
A crença de Dozinho na fama que conquistaria pelas letras levava-o a imaginar-se numa estátua ou mesmo que fosse num busto de bronze como o de Graciliano Ramos, próximo ao palanque de onde vinham os sons nas domingueiras da praça, trazendo junto os perfumes das senhoras e senhoritas no ir e vir pela calçada em frente ao bar a misturar-se aos dos jasmineiros, aqui e ali despontados pelo carinho de Josenildo, o orgulhoso jardineiro que cuidava para que o Pau Brasil fosse sempre lembrado pelas mais afoitas.
.
Mas para tanto, dizia Dozinho, duas coisas teriam que ser terminadas, ambas de desfechos imprevisíveis: o romance e sua própria vida.
Próximo de poder ser titulado autor e lá vinha o massacre de Aracy: "Dozinho, quanto terá custado o funeral de seu Sidônio?" E mais uma vez interrompia a página do romance, ainda que chegando às letras como o personagem que alimentou essa história.
II
GLORIOSOS
– Dozinho!
O grito ecoa no quarto como um trovão. Abre um olho e lá está Aracy a sacudir a folha de papel. Abre um olho, já que os dois seria impossível pela carraspana da véspera.
– Levanta homem de Deus... Finalmente chegou a resposta da editora, junto com o contrato.
Ora, isso lá é jeito de acordar alguém? Contrato, que contrato? Mas Aracy estava ali sacudindo a folha de papel qual bandeira agitada num estranho festival... Quem dissera isso? Ah, sim, Orestes Barbosa, em “Chão de Estrelas”, tantas vezes tocada na máquina de moedas no fundo do bar, o palco sem lume dos andrajosos freqüentadores quase todos sustentados por suas mulheres fiandeiras da cooperativa de artesanato.
Lá fora, na rua, a notícia já chegara e um grupo aguardava na porta sua aparição.
– Vá lá Dozinho, dê apenas um aceno para eles. Não imagina o que isso vai representar para a nossa cidade. Quem sabe seu romance vira roteiro em Hollywood? Não viu o Paulo Coelho?
Mas como? De pijama?... Cabelos em pé, nem mesmo os dentes escovados e aquele gosto de guarda-chuva na boca... Ah, coisa mais idiota, como se alguém já o tivesse chupado.
A menção do Paulo Coelho encheu-o de brios. Comparar o seu romance aos do autor de O Alquimista era não reconhecer seus méritos literários. Que se danasse Hollywood... Qual obra de Machado de Assis merecera as atenções dos produtores e diretores hollywoodianos?
Jogou por cima do pijama o paletó de tantos invernos e quase empurrado por Aracy chegou à janela. Lá estava Alaíde Camargo, mulher faladeira, Antônio Dentinho, Maruê Lagartixa, tido como dos melhores no pau de sebo das quermesses, sem falar na fina flor da boemia local, espantosamente sóbria puxada pelos vivas de Chico Bolha. Era de se esperar que a glória chegasse, tantos foram os repasses dados a obra.
– Dois milhões, Dozinho, ouviu bem, dois miiiiiiiiiiiiilhões!
Os milhões na boca de Aracy se tornavam maiores ainda. Havia, finalmente, embarcado nos delírios dela! Sabia que chegaria o momento em que, sendo o inimigo mais forte, se renderia a ele – Corrumpunt bonos mores colloquia mala, latinou, capitulando.
E como lhe pareciam reais aquelas fisionomias conhecidas, ao pé de sua janela. Não seria também real o jacaré que morava embaixo da cama de Chico Bolha e que o recebia todas as madrugadas, na volta da esbórnia? Tudo é possível, tudo é plausível, tudo é real, até aquelas pétalas que o pequeno grupo lhe atirava.
Recuou três passos e imediatamente se arrependeu. Melhor estava encarando a platéia que as chispas verdes dos olhos pequeninos de Aracy. Claro, ela sempre soubera, o talento dele era insofismável (caprichava nas palavras, a bruaca); fizera bem em contrariar o pai e casar-se com ele (arrependia-se de não ter ouvido o sogro – é minha filha, mas é uma megera); finalmente a honra e a glória que ele merecia (até babava-se de tanto gosto, a vaca).
Alisou a gola do paletó e extraiu do fundo de sua inapetência as palavras jamais escandidas:
– Aracy, eu vou ao bar...
Esfregava-lhe na cara uma redondilha maior, vingança suprema de tantos anos em que ela, alexandrinamente, lhe atirara, certeira, seu nome de solteira – Aracy Aparecida Gomes da Cruz.
– Claro, vamos, sim, meu... Meu... Meu imortal!
Voltou à janela, magnânimo, acenou, deu as costas e desceu as escadas, casaco puído e calças de pijama (ora, já não havia saído nu da cintura pra baixo do quarto de Isolda Bela Puta em tempos de vou-tirar-você-deste-lugar?).
Recuperava um pedaço de si mesmo a cada passo vencido entre a casa e o bar. Atrás dele, a “turba ímpia e nojosa” e, no meio dela Aracy, com agilidade de menina, organizava uma ação entre amigos para a compra do fardão da Academia.
Mas como fardão, se nem candidato se lançara?
– Dozinho, quanto deve custar o fardão?
Nem mesmo a futura imortalidade o poupava da curiosidade de Aracy com relação a custos, fossem do que fossem.
Nos tempos de Sarney na Presidência da República, ela ganhara fama a perguntar sobre preços, imbuída da condição de “fiscal”... Ah, sim, Sarney, agora seu futuro companheiro dos chás de quinta-feira... E aumentaram-lhe os suores na lembrança dos chás. Refrescou-se com duas cervejas, em sucessivos brindes do Chico Bolha. Agora já não eram os chás quintafeirinos que o aqueciam, era a idéia do fardão de casimira.
– Levanta homem e larga de vagabundagem... O sol está quente lá fora e você enrolado nesse cobertor.
Dois olhos abertos, chegou-se à janela. A praça vazia pelo sol causticante abrigava o sono de Chico Bolha em um dos bancos do jardim.
– Aracy, eu vou ao bar.
III
GOZOSOS
É noite, novamente. Dozinho espia por entre a escuridão do bar o movimento da praça – Sexta-Feira da Paixão, logo a Procissão do Senhor Morto iria serpentear pelas ruas da cidade, as velas enroladas em celofane colorido teimando em espalhar espermacete nas delicadas mãos das Filhas de Maria; a matraca alternando o silêncio. O dia todo ali, refugiado, sem pronunciar palavra. Não ousava dizer mais nada depois da frase proferida pela manhã. Percebia agora a inutilidade de todas elas, todas as palavras careciam de sentido, tudo já estava escrito, tudo havia sido dito. Sem sequer abrir a boca tinha-lhe sido servida a bebida de sempre, garantira a mesma conversa recortada – o levantar de uma sobrancelha era o suficiente.
O dia todo ali, pregado àquela mesa. Não comia, não falava, não escrevia, não mijava – e isto era verdadeiramente espantoso, levando-se em conta as garrafas de cerveja que se acumulavam no canto da parede. Havia, finalmente, voltado à sua condição intra-uterina, boiava em meio ao burburinho, cenas fortuitas eram percebidas de relance, como o olhar pasmado de Chico Bolha ao testemunhar o apelo inédito e impensável de Aracy, pousando a mão em seu ombro – “Vamos para casa, Dozinho”. Deu de ombros para o companheiro, fixou-se no bater dos saltinhos baixos da mulher esquadrinhando com passos curtos não mais a volta para casa, mas para um caminho nunca dantes percorrido para perfilar-se a Procissão do Senhor Morto.
O dia todo ali e, subitamente, uma voz o arrancava de seu torpor. O trabalho de parto, iniciado pela manhã e entrado pela noite, agudizava-se. No púlpito improvisado em frente à Matriz, Verônica canta, rosto encoberto. Uma odalisca, essa Verônica – ensaiava uns passos da dança do ventre entre um “o Vós omnes” e outro, o véu escorrendo face abaixo.
Quebrantado pela lengalenga, levanta-se e segue o chamamento. "Eloì, Eloì, lema sabactàni?"
Entra na igreja, altar desnudo, santos cobertos apaixonadamente de roxo, o cheiro do jejum, do fracasso, da tristeza e do silêncio. Abstinência da palavra, porto da palavra, liturgia da palavra, das sete palavras.
Bruxuleava.
Da porta principal vê entrar o corpo do Senhor Morto, ladeado de todas as mulheres que fazem fila para lhe beijar os pés. Atrás da coluna espera que chegue a vez de Alaíde Camargo e precipita-se após o ósculo. Embriagado pelas velas e pelo silêncio, longamente “beija o beijo, não os pés”.
Não estivesse o Senhor Morto, nem mesmo ele escaparia do sobressalto diante dos repentinos arroubos de Dozinho, atracado, a pespegar beijos obscenos na faladeira Alaíde Camargo, que passou de flecha a alvo sob os olhares de mais de centena de fiéis e outro tanto de infiéis, todos agora testemunhas de uma paixão por tantos anos mantida em segredo.
Todos não. Menos Aracy, fulminada por colapso, morta na fila do Senhor Morto.
Dozinho, transfigurado, é tirado dos pés de Cristo sob o ronco de trovões que desciam dos céus, pragas e “te esconjuros” das beatas que a essa altura se acotovelavam na nave para testemunhar tamanha heresia. Instalara-se a balbúrdia na noite sacra, coisa nunca vista.
– Está tomado por satanás...
A frase passava de boca a boca, seguida de “cruz credos” e “benza Deus”, algumas já em aconselhamentos de que fosse coberta a cabeça de Cristo. E motivo havia pra isso.
Aos empurrões é retirado da Matriz. Lá fora esbarra nos vivas de Maruê Lagartixa e Chico Bolha já fora do banco da praça que lhe acolhia o sono.
Fechava-se assim o romance da vida de Dozinho, em gozos de embriaguez, naquela sexta-feira de dupla paixão – e morte – ampliada ainda mais por dona Afrodite Augusta Nogueira, mulher de Chico Bolha, que disse ter visto o Senhor Morto a piscar para Dozinho.
Wednesday, March 14, 2007
GRANDE ROBERTO
Muitos anos haviam se passado e o encontro se dera num corredor desses muitos shoppings barulhentos. - Você não é o Alfredo? (Claro que eu sou o Alfredo. Esses caras nunca têm falha de memória como eu).
Não me deixei apanhar pela surpresa de não reconhecê-lo.
- Cara, você continua o mesmo...
A expressão "cara" sempre em uso ultimamente pareceu salvadora enquanto esforçava-me em lembrar o mesmo quem que continuava o mesmo, antes que ele percebesse ser impossível ser o mesmo de anos antes. Afinal, dos cabelos pouco mais tinha que ralos fios e totalmente brancos. E seria igualmente impossível que sua outrora juventude já lhe trouxesse barriga tão proeminente. A somar, um vasto bigode branco.
- Como era mesmo o nome daquele seu irmão mais novo? Ah, sim, o Antônio... Figuraça ele, heim?
O erro por ele cometido me deu uma quase alegria, não fosse o Antônio, o mais velho e já falecido. O mais novo era eu, portanto ele queria mesmo era saber de mim.
- Continua casado? Quantos filhos?[
Antes mesmo que eu respondesse, ele começou a desfiar a ficha cadastral.
- Estou na terceira mulher... Ah, ah, ah. Aposentado, filhos dos dois casamentos anteriores e uma netaria que faz a alegria lá de casa quando junta todo mundo.
Sem que eu mesmo me interessasse falou das três mulheres. E fez a volta ao passado, falando das moças das tardes dançantes e dos galãs de cabelos glostorados, quase todos já mortos. O cara era um obituário ambulante.
- Lembra da Regina?
Balancei a cabeça afirmativamente e me preparei para mais um atestado de óbito.
Regina fora minha namorada e a última vez que a vi custei a admitir que no passado pudesse ter sido das mais requisitadas quando a voz de Johnny Mathis enchia de sons o salão do clube que freqüentávamos.
- Morreu? - antecipei-me já preparando uma daquelas frases sempre idiotas que nos ocorrem quando recebemos a notícia da morte de alguém já fora do círculo do nosso convívio.
- Morreu nada, ah, ah, ah. Mais viva do que nunca. Dois belos casamentos e mora num duplex na praia, mercedão na porta. Tá lotada, cara...
Deus tinha que recompensá-lá – pensei com meus botões, ao lembrar-me do quase encontro de que escapara com uma perua de banquete de ceia de Natal.
O bigodudo não dava uma pista de quem era. Já começava a ficar nervoso e prestes a interpelá-lo sobre sua identidade quando veio em nossa direção uma lourinha saradona, num jeans mais apertado que boca de bode.
- Vamos?
Buscando ser simpático aos dois não poupei o elogio:
- Bonita moça, sua neta?
À risada, da moça seguiu-se a explicação:
- Doralice, minha paixão atual...
Olhei o cartão que me entregara e lá estava finalmente seu nome.
Grande Roberto - resmunguei. Mais, raios, quem era mesmo o Roberto?
Tuesday, February 27, 2007
O HORÓSCOPO
Seu António, homem de pouco saco e muita farinha, conforme se dizia à boca pequena, no bairro, é caladão, tem hábitos severos e goza de respeito temeroso em toda a vizinhança. Pai de duas filhas que com homens só viveriam se casadas de papel passado no cartório e na igreja, segundo vive repetindo. Jamais permite que Aurora, sua mulher, se ponha à janela, nem mesmo quando as duas vizinhas, Margarida e Hortênsia, flores de reputação duvidosa na sua avaliação explodem em imprecações nas brigas domésticas.- Lugar de mulher é na cozinha...
E é onde dona Aurora se enfia com os primeiros raios do sol, em meio aos temperos, cujos aromas chegam à sala de jantar do sobrado do doutor Adamastor, que doutor não é, título emprestado ao homem pela elegância no trajar e trejeitos que dão o que falar aos vizinhos.
Seu António, mesmo rico, só aceita comer o que a mulher prepara. Uma escrava submetida às ordens do Senhor, pensam as filhas, também elas submissas às exigências medievais do pai.
Com a chegada do carnaval, Aurora, mulher de grande fé religiosa, vai para um retiro. Apesar dos protestos, leva as duas filhas, que só acabam cedendo por saber que rapazes da congregação dos moços também lá estariam.
Um dia, na leitura do jornal, Seu António, que jamais tinha lido um horóscopo por desacreditar deles, decide dar uma espiada e lê: “Momentos divertidos virão, novas amizades lhe trarão infindáveis prazeres. Use roupas coloridas e muitos dourados...”.
Pensa em Etelvina, mulatinha sestrosa, candidata a Rainha da Bateria do Bloco Unidos do Cabuçu, em escalada para chegar a Marquês de Sapucaí num futuro próximo que se prenuncia pelas atenções do bicheiro André Brilhante.
Recolhe no armário uma camisa roxa desprezada, a calça vermelha presenteada pelas filhas e jamais usada, a faixa dourada usada pela mulher com um grande laçarote na festa de formatura da filha mais velha e. Pronto! Joga tudo numa sacola e segue para o Catumbi, bairro vizinho onde mora o amigo da juventude Oriovaldo, solteirão e farrista incorrigível. Lá se dará a transformação e surgirá o Antônio horoscopiano para cumprir os desígnios dos astros.
Olha-se no espelho e não se reconhece. A princípio, sente-se ridículo, mas a imagem que vê de certa forma o agrada, pois é ela que romperá os grilhões de uma vida que muitos apontavam como careta. Convidado por Oriolvaldo, parte para o Bar do Juca, para umas cervejotas antes do que se promete uma esbórnea carnavalesca.
E acontece que na caminhada ao bar, Seu António cruza com a mulher de saia rendada, grandes argolas nas orelhas, rugas cruzando a face. Uma cigana! Que insiste em ler sua “sorte”, pouco lhe custaria. Constrangido, tenta se esquivar. Detesta ciganos, julgando-os todos vagabundos e ladrões. A mulher implora... Oriovaldo apela:
- O António, deixe que a mulher leia sua mão. A cigana precisa comer...
Desvia-se dela, se apressa, ainda ouvindo, a mulher que o persegue repetindo,
- Sua sorte vai mudar, miserável...
As palavras ainda ressoam... Entra no bar... Precisa beber alguma coisa mais forte que uma simples cerveja... Súbito, o bar se enche de mascarados coloridos como ele e íntimos de Oriovaldo. Fica confuso com a atração que o grupo exerce sobre ele. Nem saberia dizer como participa agora do troca-troca geral e anônimo no entra e sai do banheiro... Mas a sensação é de prazer jamais sentido... Prazer intenso, prazer só agora descoberto, prazer como nunca antes lhe fora dado sentir...
Volta à mulher com as filhas e com elas, a rotina da casa. Não a dele. Percebe agora quanto se vestia mal, sequer tinha perfumes. E se dá conta do vizinho, Dr Adamastor, sua elegância, sempre cheiroso, homem requintado... Tem sonhos eróticos onde o vulto do doutor se confunde com tantos outros invisíveis dos troca-trocas da noite de carnaval. Revira-se na cama, é intenso por demais o desejo, desejo que é dor, dor que é desejo...
Não se intimida e aproxima-se de Adamastor. Aconselha-se sobre melhores flagrâncias, alfaiates, nomes de estilistas, chegando às minúcias dos anéis. Aurora surpreende-se a cada entrada com sacola estampando nome de grifes famosas. Pensa em Etelvina tão citada pelo marido e teme pela solidez de seus mais de 20 anos de casamento.
A vida segue e a vizinhança tem agora dois doutores. Gentis e elegantes cavalheiros, amigos inseparáveis nas idas à academia. Contratam o belo jovem Alfredo como personal training. Agora é cuidar da alma, pois o corpo está entregue a Alfredo, que se divide entre um e outro.
* * *
O médico plantonista atende:
- Que outros sintomas acusa? Terei que pedir vários exames para um diagnóstico preciso.
Envergonha-se em ter que falar de sua vida sexual.
O médico constata o desespero do homem curvado pela dor, pálido, suando de dar dó, os olhos baixos, ar de constrangimento, como se desculpando por estar ali...
Leva-o à sala de exames, chama a enfermeira. Antes que chegasse, ele implora:
-Por favor, doutor, pelo amor que tem a seus filhos, só o senhor...
Ele não tem filhos, sequer é casado, mas atende ao pedido, dispensa qualquer ajuda, examina o paciente e encerra a consulta com a solicitação de um exame completo de sangue. Nenhuma pergunta mais. Preenche a ficha, escreve algo de modo a não comprometer o paciente.
Chega o resultado do exame: é portador do vírus HIV.
Seu António está confuso.
- Fui sempre um homem severo demais com as fraquezas humanas, doutor. Deus me puniu. Ou me atingiu a maldição de uma cigana. Não sei dizer. Procurei ser sempre digno e honesto, doutor. Gosto da minha mulher, adoro minhas filhas... Jamais suspeitei de qualquer tendência homossexual. Creio que ninguém da família também. Peço-lhe que seja discreto. Assumo sozinho. Sou um homem rico, doutor. Precisando de alguma ajuda, conte comigo. Não interprete como corrupção. Gratidão apenas...
Seu António pensa nos mascarados, em Adamastor e Alfredo. Qual ou quais? Como alertar os dois últimos do mal que começa a consumi-lo? Só então lhe ocorre a frase final do horóscopo: “mas não exagere nos seus prazeres durante o carnaval. Use a camisinha”.
Saturday, January 13, 2007
O ENTERRO
Olhos arregalados, em pé na calçada, eu acompanhava aquele entra e sai de mulheres e homens em trajes escuros.
Levado pela curiosidade, entrei na casa. De imediato fui abraçado pela gorda senhora, em prantos. Temi por alguns momentos que também eu tivesse que acompanhá-los em suas últimas moradas. Afinal, nem tão íntimo era assim. Muito pelo contrário. Muitas vezes era corrido por minhas preferências pela cajazeira do quintal dos não muitos simpáticos vizinhos. Nunca me passara pela cabeça que D. Maria pudesse entrar com mais alguém num caixão de defunto. Fosse retangular e largo, até admitiria, pois assim via as sardinhas em lata. Mas D. Maria?
Ainda maior o absurdo da desproporcionalidade dos corpos. Seu Antônio, magrinho, magreza que mais ainda se acentuava junto à volumosa vizinha da casa assobradada em frente à nossa.
Auxiliada por mais três carpideiras, D. Maria fazia parte daquele quadrilátero de prantos que me atordoava e sobressaltava-me pela afirmativa de que homem tão bom como aquele não existia na face da terra e que Deus o teria sob sua guarda. Como "tão bom"? Afinal, aos meus olhos e pernas, nem tão bom ele era, pois não foram poucas as vezes que me correra a vassouradas ou o vira atracado com domésticas nas imediações de nossas casas.
Perdia-me em pensamentos, alentado pelo café de bom aroma e pelos bolinhos de milho que passavam em bandejas de louça floridas. O velório transcorria com os elementos necessários. O forte cheiro do espermacete queimado misturava-se ao aroma das flores, nauseando-me. Mas dali só me afastaria depois de certificar-me do milagre de colocarem D. Maria no caixão.
Razão eu tinha, pois meu amigo Beto me contara o velório da avó dele. Por falta de dinheiro, compraram “caixão de anjo” e depois de muito empurra daqui e empurra de lá, com a defunta comprimida, aparafusaram a tampa. Regada à boa cachaça, a noite ia alta quando uma vizinha curiosa, aproveitando-se do descuido dos parentes, afrouxou os parafusos na intenção de ver o rosto da defunta. A tampa impulsionada por pernas e mãos da velha comprimida caiu no meio do barraco, despertando alguns e acelerando a corrida favela abaixo.
Fascinava-me a idéia de como fariam isso com D. Maria. Fazia medições e pensava nos cajás já não mais policiados pelo casal. Olhei para o crucifixo à cabeceira do seu Antônio e cumpri a reza de que bem fossem eles acomodados, ainda que confessadamente descrente. Mas se multiplicados foram os pães, como me vinha sendo dito nas aulas de catecismo, por que não seriam alguns centímetros do caixão multiplicados?
– Eu quero ir com ele! Deixem-me ir! Ponham-me no caixão com ele!
Definitivamente, D. Maria tinha presença de palco e estava decidida a não deixar o velório cair na monotonia. Se bem que a platéia já ansiava por variações do mote, a julgar pela troca de olhares e o silêncio que permitia ouvir as gargalhadas da cozinha – não há lei que proíba contação de piada em velório.
– Talvez se virassem Seu Antônio de lado...
Apenas murmurei, mas a idéia ganhou vida própria e correu por toda a sala. Claro, virando-o de lado e encaixando a viúva em sentido contrário... E a palavra "encaixar" ganhou sentido e materialidade: D. Maria seria encaixada, era só uma questão de operacionalizar a decisão.
O velório se animou. Havia sido encontrado o verdadeiro sentido daquela reunião, já que Seu Antônio, por mais que defunto fosse – e todos sabemos que os defuntos são bons, a vida é que os corrompe –, não era merecedor de tantas horas perdidas em um sábado de sol, nem dos balaios de pãezinhos de leite, os bolos de fubá, os biscoitinhos de maisena e os bules de café.
Bem verdade que alguns levantaram questões morais e éticas, mas o desejo explícito da viúva, o livre-arbítrio, a eutanásia e os antigos costumes hindus acabaram por esmorecer os pruridos. D. Maria seria encaixada, embora ela própria já não tivesse mais tanta certeza da verdade de sua fala – que idéia mais infeliz essa de repetir as palavras do folhetim – mas era mulher de não voltar atrás no dito. Encaixar-se-ia, se necessário fosse, nem que fosse a última coisa que fizesse nesta vida.
Ato contínuo desceram o caixão ao chão e as carpideiras tiveram algum trabalho no rearranjo das velas e do crucifixo – afinal, aquilo ainda era um velório. Um vento súbito inflou as cortinas e o cheiro do cajá-manga inundou a sala. Sentei-me nas tábuas do assoalho, evitando o olhar da viúva e sabendo que aquilo seria ainda melhor que lhe roubar os frutos. Seu Salatiel, o boticário, segurou os ombros do defunto e convocou com um olhar um voluntário para os pés. D. Arminda foi aos pés e realizaram a operação, com algum esforço. Digna, porém um tanto relutante, D. Maria encaixou-se, lado a lado.
Orgulhava-me ter sido o autor da idéia de como acomodá-los. Timidamente empurrei um pedaço de bunda de D. Maria que insistia em não se recolher ao exíguo espaço. E mais ajuda não prestaria, pois bem sabia do peso acrescido ao esquife. Não só eu, mas Juca Stapanato, italiano dos mais fortes das redondezas, que ao pressentir que seria convocado para repor o caixão na mesa, afastou-se para a varanda, mesmo diante do olhar crítico dos presentes.
Iniciaram-se as rezas, já agora no plural, pois dois seriam os defuntos – que um era de fato e por direito, e outro de corpo e alma presentes, a ter-se entre as pernas do primeiro, em suspiros. Era espetáculo de não se perder o que viria depois: a colocação da tampa. Deixei sobre a cadeira o bolo de aipim e me posicionei no melhor ângulo que me permitisse ver a compressão da volumosa senhora, mantendo uma distância que me resguardasse dos gases que diziam expelidos por recém-defuntos.
Este conto contém 3 finais diferentes por sugestão da co-autora Teresa Mello.
Friday, January 12, 2007
O MELIANTE DAS LETRAS
Soturno, sempre desconfiei de suas intenções. Menino, ainda, vestiam-no com casacos pretos, que combinavam com profundas olheiras e as pesadas botas que o obrigavam a um andar arrastado, olhando, vez por outra, para trás, como cão enxotado. Arredio às brincadeiras de rua, me parecia uma dessas figuras a quem a vida não concede uma saída, aprisionando-o dentro de si mesmo. Na mão, amarrotadas folhas de papel almaço, que dizia ser o suporte para o que mais gostava de fazer: escrever.
Nunca ninguém vira nenhum dos seus escritos. Apenas suposições dos que o encontravam desatento, com um cotoco de lápis, a rabiscar, longe dos gritos das crianças que, iguais a ele, tanto se diferenciavam pela alegria. Nem mesmo seu nome sabiam. Por todos era tratado como “o escritor”, único momento em que o brilho dos olhos manifestava seu agrado.
Aguçava-me a curiosidade maior que a mangueira debaixo da qual se sentava no quintal de um velho casarão.
Voltei a encontrá-lo quando o casaco e as botas eram bem maiores. O casarão e a mangueira haviam dado lugar a um prédio em que empilhavam novas famílias. Meu reconhecimento se fez pelas encardidas folhas de papel em suas mãos. Que idéias teria posto nelas? E aguçado pela já madura curiosidade, me aproximei.
Assustado, olhou-me de soslaio e apertou o chumaço de papel com o medo natural de quem vive numa cidade ameaçado pela violência onde o canto dos pássaros havia sido substituído pelo sibilo das armas de fogo.
Tranqüilizei-o com os ares de velho amigo e mansamente falei de uma infância que vivia na minha memória: dos ipês lilás e amarelos que coloriam a rua sem saída perfumada pelos jasmins; do café servido com bolo de fubá e aipim, nos fins de tarde, entre papos acalorados dos homens sob o olhar adocicado das mulheres. Falei, ainda, de Helena, para quem ele nunca dirigira um olhar. Helena tão cobiçada por todos nós... E aventurei-me:
- Diga-me, amigo, o que de tão importante escrevinhou nesses papéis, que sempre os teve protegidos dos olhares de todos?
Percebi o tremor de suas mãos que se seguiu à minha pergunta.
Aterrorizado, levantou-se e desapareceu ágil como nunca fora. Pensei nas pesadas botas...Foram muitos os anos e o reencontrei, cabelos brancos, corpo arqueado pelo peso dos seus próprios desencontros. Dirigiu-se a mim em passos arrastados sem que eu buscasse a aproximação.
Não fossem os papéis, não o reconheceria. Agora, tinha-os bem mais encardidos, mas não menos causa de sua inquietação e da minha curiosidade por tantos anos alimentada. Temendo afugentá-lo, pensava de como na abordagem viesse a desvendar o mistério dos seus escritos.Surpreendeu-me:
– Sempre vi nos que viviam próximos a mim a intenção criminosa de me tomarem os papéis. Por toda a vida eu os protegi. Cuidei deles como zelei pela minha alma. Neles está a minha própria razão de viver.
Como um meliante das letras, não resisti à tentação de roubá-los, cuidando de antes policiar se alguém me observava.
Arranquei de suas trêmulas mãos tão preciosos papéis, pois assim me pareciam. E num fôlego corri até a rua sem saída.
E lá estavam o casarão, a mangueira e o menino.
Deixei junto a ele os papéis em branco que roubara...
NOITE DE NATAL
E Marta o vislumbra entre as brumas da paisagem fantástica, pensamentos e sentimentos chegando aos dela, uma claridade mental que se interprojeta, ele e ela, ela e ele... um integrar-se em que nada se esconde...
Mas Carlos tem os olhos fixos no céu, recolhe em delírio as estrelas, coloca-as nas caixas de cristal, enlaçadas por fitas de arco-íris e lhe oferece o presente sideral. Porque é Natal...
Ouvem-se murmúrios. Há uma estranha música, lentamente transformada em gemidos delirantes. Luzes explodem na rua em guirlandas coloridas. E o orvalho das lágrimas escorre no rosto sofrido. O doloroso contraste... A alegria inalcançável chegando pela janela entreaberta... Distante, cintila a árvore de Natal... Ondas de vultos brancos abrem-lhe o sorriso tímido num rosto de neve. Trenós de prata cruzam a porta. O tilintar dos cristais mistura-se aos guizos das renas, ao coral dos anjos, às preces longínquas. Uma a uma, distribui as caixas de cristal aos que chegam e o cercam, ajoelhados em oração.
Pela janela, o sopro frio da madrugada ainda se faz mais frio. Ela e ele distanciam-se, caminhando entre as brumas, na busca da estrela-guia...
Agora Carlos dança, são volteios cadenciados. Cantos e ritmos pagãos enchem a sala. Cercado de atenções, lá está o homem sedutor que ele é agora, o dançarino sensual... Marta busca seus braços, o calor do corpo que busca. Mas Marta está agora sozinha no jardim... A chuva cai fina nessa noite sem estrelas... É preciso cumprir o ritual, tirar a moeda do seio, concentrar-se no pedido, jogá-la com as flores ao mar... Mas não há mares nem iemanjás... Apenas um coração... Porque é Natal...
E de repente, está de volta ao salão... Bocas embriagadas em delírios gritam alucinadamente, despertando cristos meninos das manjedouras das calçadas sob um céu riscado por fogos de artifício... E novamente Carlos, um vulto branco se esvaindo qual fumaça ao vento... Tenta segurar as fugidias vestes brancas... esbarra nos convidados... a dor da separação... as lágrimas contidas... toques estridentes...
E Marta acorda, confusa, telefone tocando, “feliz natal”, a voz da amiga querida, cumprimentando... Tão belo e estranho o sonho... Mas tem que levantar, tanta coisa a fazer, É Natal, sim, um infeliz Natal, Carlos a deixará, assim lhe fora dito na véspera... Uma viagem sem volta. Um oceano se estenderá entre eles... A distância infinita do adeus... Mas há outra distância, a dos sentimentos, a distância entre o querer e o poder, que cruelmente os separa... Sem piedade ou perdão pelos laços dos que um dia se uniram, dos que se quiseram bem, dos que um dia juraram fidelidade, quando noivos inconscientes das imprevisíveis paixões... das tristezas com que se tecem as renúncias... Da covardia dos que se acomodam e fazem da vida a rotina do meio termo banal, sem o encanto dos extremos, Ah, o mundo inconfessado dos desejos reprimidos, os sonhos denunciadores, uma supra realidade onírica do amor eterno e impossível...
Pensativa, Marta busca-se no grande espelho. Uma mulher sofrida, frágil, ainda bonita. Apenas o vulto branco na penumbra do salão vazio. Passos arrastados em direção à janela de onde chegam os sons da vida.
Atira-se anjo no espaço... explode seus sonhos na calçada...
MAGIC GIRL
Ela tinha 1,57 de altura e pesava 72 quilos. Usava uma camisola branca, curta, decorada com um rosto feminino escrito Mágic Girl, em letras vermelhas. Despenteada e com os olhos inchados, olhou-se no espelho e sorriu para a imagem que viu refletida.Lembrando-se de que ainda não tinha escovado os dentes guardou o sorriso e abriu a torneira do chuveiro e deixou que a água escorresse por seu corpo.Olhou pela pequena janela e viu o céu desperto numa manhã radiosa que prenunciava o nascimento da nova mulher a que se propunha ser. Para tanto, teria que vencer aqueles malditos quilos. A cada aproximação do fim do mês a promessa de que no mês seguinte cumpriria metodicamente os exercícios físicos e a dieta imposta pela nutricionista indicada pelo seu já desanimado endocrinologista.
Cantarolou o "que será, que será..." de Chico Buarque e pensou na alcova sempre vazia. Mas ia dar um jeito em tudo aquilo. Quilos a menos, caminhadas a mais, e surgiria a nova Elvira, sedutora e seduzível, como fora alguns anos antes com Alfredo, seu primeiro marido.
Enfiou-se no jogging, calçou o tênis e, porta afora, seguiu célere para o calçadão, misturando-se as que, como ela, buscavam o novo padrão ditado por estilistas homossexuais e politicamente corretos com seus proeminentes bustos, bundas ajustadas em apertados jeans, multicoloridas camisas e sapatos graciosos. Já se via como uma das giseles e naomis magérrimas. Mas vômitos estavam fora de sua cogitação, bem como jamais abdicaria dos gateaux da pâtisserie da esquina de sua casa, ponto obrigatório na volta do escritório.
Perdida em pensamentos, walkman embalando seus passos cadenciados ao som de "Boom Boom My Hearth", cruza com Mario, o ex-gato das tardes dançantes do clube. Finge que não vê, o que até poderia ser possível pelas grossas lentes que a miopia a obrigava a usar, mas impossível pela barriga ostentada e pelos ralos fios da outrora bela cabeleira que emolduravam o nariz grego perfeito daquele que fora a paixão da sua juventude.
Ao acordar, sentindo os efeitos da bebedeira da noite anterior, com a cabeça latejando, boca seca e lábios dormentes, ainda sob o chuveiro, Mário determinou-se a mudar de comportamento. A água que lhe empapava os poucos fios de cabelos que ainda lhe restavam, acumulava-se no alto da barriga e quase não atingia o órgão que, outrora, admirava com orgulho. Hoje, avistá-lo, só com o auxílio do espelho, objeto que ultimamente procurava evitar.
Enrolado na toalha, que praticamente não cobria a circunferência que se transformara sua cintura, retirou da gaveta a velha bermuda cáqui, o par de meias brancas com frisos vermelhos e pretos e uma camiseta com a estampa de sua marca de cerveja favorita. Providenciou óculos de sol para esconder as olheiras, colocou alguns trocados no bolso para a água de coco que sabia iria necessitar e foi para o calçadão como quem vai para a guerra. Era sua batalha pessoal que começava a ser travada: a partir de hoje, nada de noitadas regadas a cervejas e vinhos baratos, adeus aos torresminhos do “Sujinho” e: Piranhas chorem, eis que está nascendo um novo Mário!
Após três anos de viuvez, resolveu enterrar de vez a esposa e partir para a uma nova vida. Isso mesmo, uma mulher de verdade, com direito a jantar a luz de velas e às cenas de ciúme; que lhe proibisse de sentar no sofá quando estivesse suado, que reclamasse da toalha molhada sobre a cama. Uma mulher que, à noite, o cutucasse com os cotovelos, quando roncava; que implicasse com o cheiro do cigarro e com o bafo da bebida. Era disso que sentia falta: da mulher de verdade – cansara-se dos perfumes francês, made in Paraguai, comprados nos camelôs, das marcas de batons vermelhos no colarinho, de acordar em camas, cujos colchões ainda guardavam os cheiros de outros homens e de corpos que não se ajustavam ao seu.
O pensamento, voltando ao seu corpo de formas roliças e flácidas, remeteu-lhe ao calçadão, armado com o diskman, onde introduziu um CD de Louis Armstrong, iniciou sua caminhada.
Mal dera duzentos passos e cruza com Elvira. Fez que não a viu! Inacreditável como algumas pessoas têm a capacidade de se enfear cada dia mais. Lembrou-se das domingueiras, onde Elvirinha o perseguia. Magricela, míope e carente, ficava na “xepa”, aguardando os rapazes levarem um fora de suas prediletas e só então recorrerem aos seus favores. E ela ali, dócil, carente, disponível, consolava e consolava-se com poucos beijos na boca e amassos escondidos em algum canto mais escuro do clube. Mário também se consolara com ela quando fora preterido pela Miss Primavera e a partir desse dia Elvirinha encarnara nele, o perseguia com telefonemas, bilhetes e poemas.
Até que terminaram o colégio, ele fora para a Faculdade de Engenharia e Elvirinha passou a lecionar no próprio colégio de freiras, onde estudara. Anos mais tarde, Mário soube que Elvirinha casara-se com o ex-seminarista, Alfredo, que levava a pecha de homossexual, porque ajudava nas missas do capelão da escola, o qual era conhecido no meio estudantil por não resistir aos apelos masculinos.
As passadas agora eram mais curtas e lentas e ela começa a desconfiar que a meta de um quilômetro jamais seria atingida. Conforma-se e busca na observação dos caminhantes distrair-se das dores que começam a se manifestar na batata da perna. Esquecera-se do alongamento recomendado por D. Alzirinha, a vizinha do terceiro andar que tinha no Dr. Cooper um Deus, se bem que um Deus que não lhe proporcionara o milagre da elevação dos peitos e desaparecimento do culote. Mas, enfim, nem todo Deus é perfeito, pensava.
Seus batimentos cardíacos alterados jogaram-na num banco e por ali ficou a olhar João Ubaldo, o escritor, a perseguir um manquinho bem mais ágil, até que ambos desaparecessem de suas vistas com a vitória do manquinho por alguns metros.
“Arrastão! Arrastão!”. Os gritos vindo da areia coloca-a em sobressalto e lhe tira a atenção da loura coberta por um minúsculo biquíni. Já a vira na “Caras” e lhe pareceu com a mesma maquilagem exposta agora ao Sol. Corpo marombado em academia, a loura tinha ao seu lado um senhor de seus sessenta e muitos anos e, certamente, de alguns muitos milhões na conta bancária.
A correria generaliza-se. Mas não seria ela exausta como estava que iria fazer parte daquela maratona, entre freadas e buzinadas. À distância, vem vindo Mario, passo de cágado, levando-a à certeza de que, como ela, pousara em algum banco, antes de retornar à casa. E dá-se o encontro, com o arfante Mario sentando-se ao seu lado e massageando as pernas finas que lhe pareceram em desequilíbrio com o volumoso tronco.
- A violência nesta cidade está de um jeito que não encontramos um momento sequer para o nosso lazer...
O comentário não se perdeu no ar já que justificava para ambos o abandono de seus projetos. E foi fundamental para que começassem a falar do passado, matinês no clube, casamentos, com interrupções de “morreu” à lembrança de um ou outra dos saudosos tempos da juventude.
Foi quando os batimentos cardíacos de Elvira voltaram mais intensos ao repentino convite que se seguiu à interrogação do que ela faria naquela noite.
- Conheço um barzinho super agradável numa transversal de Botafogo onde poderíamos conversar com tranqüilidade. Sou amigo do dono e garanto um tratamento vip, com bebida e tira-gostos honestos. Se não tiver nenhum programa, passo em sua casa às nove. Está morando aonde?
Passou o endereço, angustiada de que ele viesse a esquecer. Despediu-se com um beijinho de cada lado. Naquele momento, efetivamente, sentiu-se uma magic girl. E foi para casa, com outras idéias na cabeça.
Quando a campainha tocou, Elvira ainda mergulhada em dúvidas mexia na gaveta de lingerie. Algumas ali estavam na longa espera em números menores. Num sobressalto, lembrou-se de estar sozinha, pois dispensara Conceição dos serviços antes de entrar no banho. A insistência levou-a a enfrentar a realidade de um peignoir sobre a pele e correr para a porta. Certificada de tratar-se de Mario pelo olho mágico, girou a chave, pedindo que lhe desse um minuto, entrasse e aguardasse no sofá até que acabasse de se arrumar.
A presença de Mario já na casa apressou a decisão sobre o conjuntinho preto de rendas que lhe pareceu simpático caso a noite se prolongasse. Apertou-se num jeans, uma camisetinha básica, enfiou o pé numa sandália, outra, mais outra, até certificar-se de ser a de tirinhas a mais sexy. Blazer creme realçando os adereços e pronto. O último olhar no espelho para conferir a maquilagem e partiu para sala deixando no ar o aroma do “Trésor d’Amour”, de Lamcôme, que lhe pareceu perfeito.
Sentiu-se uma deusa pelo olhar de admiração, dois beijinhos, um “oi, como vai?” e o “Vamos?”, com a segurança de ser a dona da bola.
A noite prometia e Mário, com a experiência dos anos de viuvez, percebia que não precisaria de muito esforço e dinheiro para ficar com Elvira. Pela maneira em que se arrumara e se perfumara a presa já estava no laço, era só apertar um pouquinho.
Ainda com o pudor adolescente de reencontrar amigos da velha turma, não colocou os braços sobre o ombro de Elvira, caminharam, lado a lado, pelo calçadão a procura de um táxi e quando o encontraram Mário deu o endereço do restaurante. Dentro do automóvel, colocou as mãos, amigavelmente, sobre os joelhos da companheira, sendo sutilmente repelido.
Oras..Oras...pensou. E essa, agora?Esquecido do regime e das determinações impostas pela manhã, Mário pediu um filé à parmegiana, acompanhado de uma cerveja preta, esquecendo a salada verde no canto da mesa. Elvira o acompanhou e não resistiu à sobremesa, nem ao café com creme, oferecido pelo garçom. Conversaram sobre o passado, evitando a parte constrangedora do relacionamento anterior, falaram dos falecidos, da rotina que os engordara e os entristecera, brindaram ao reencontro no calçadão e às promessas descumpridas.
Mário, mais por ser um cavalheiro do que por tesão, insinuou que poderiam esticar a noite em seu apartamento e ela gentilmente o liberou do encargo.
Despediram-se com um beijo no rosto e o velho cansaço nos olhos. Ao retirar a maquiagem e vestir a velha camisola, onde em letras coloridas lia-se Magic Girl, Elvira sentiu a necessidade de programar o rádio-relógio para despertar as 7h00 da manhã, a caminhada no calçadão a esperava.
Se tivesse olhado pela janela do apartamento teria percebido que Mário dispensara o táxi e dirigira-se ao boteco próximo. Bebia a primeira dose de um uísque enquanto olhava para as pernas bronzeadas e bem torneadas da mulher, de mini-saia justa e decote pronunciado da mesa ao lado. O olhar de desprezo da mulher trouxe a Mario a realidade do quanto necessitava se por em forma. Pediu a conta sem mesmo terminar a dose de uísque e foi para casa. Ao passar na portaria, uma solicitação ao vigia para que interfonasse às 7h00, pois retornaria à meta dos menos 15 quilos.
Numa olhada para trás, viu Elvira aproximando-se. Diminuiu as passadas até que ela emparelhasse e seguiram firmes em seus propósitos.
O BEIJA-FLOR E A ROSA
Sempre assim as rotineiras manhãs no casamento sem brilho, preso pelo fio das convenções sociais, quem sabe, melhor dizendo, da norma fundamental, a que se obriga... Entre o acordar e o adormecer, entre os dois crepúsculos dourados, o contraste do descolorido da própria vida... O suceder dos mesmos dia-a-dias, pontilhados por difusa expectativa... E agora ali, diante da janela, à espera... Pressente que virá... E virá espargindo charme, jeito blasé, de convicta sedutora entediada? Quem sabe ansiosa? Algo novo na vida... Talvez a mulher em tantas outras vislumbrada, e enfim ali inteira, encontrada, ali presente, ela mesma...Óculos... A vista já cansada das tantas leituras, na longa procura da mulher perfeita, que sempre acreditou existisse. Acreditou... Não mais...
Sabe-a imperfeita, como todas as outras que imperfeitas são, malgrado as teias dos estudados complexos sentimentos e emoções... Sim, sabe-a perdida e imperfeita... Por mais que tenha enriquecido a mente, sempre versátil e aberta...
Jornal abandonado ao lado, tão pouco o interesse pelo moto continuo das tragédias, já tornadas rotineiras, tanto se repetem embotando os sentidos...
Aguarda... Como aguardara em tantas outras manhãs ensolaradas que ela chegasse, romanticamente, pelo vidro da janela... Sonho e razão em harmônica convivência. A ainda imprecisa bem-amada cuja ausência se faz sentir nas solitárias noites enluaradas, ou na estranha saudade configurada na chuva caindo, quando sozinho suspira à janela...
Mas, aos poucos, a manhã se transmudando... De onde os enigmáticos acordes entrando pela janela, pelos ouvidos já ansiosos, trazendo mensagens nunca antes apreendidas? E então o vê, jóia preciosa, brilhando ao sol, no bater das asas, um beija-flor pequenino, que, frenético, se aproxima, girando sobre si mesmo... Quem sabe reverência, quem sabe um beija-flor também buscando amor, amor de beija-flor...
Sonhador e curioso, assiste ao mágico balé do passarinho na roseira, no palco que a natureza ensolarada lhe empresta, beijando as belas rosas, que o recebem entre espinhos, sem magoar... Como ele próprio receberia um dia a bem amada se viesse, os espinhos da vida afastados...
Quem sabe também assim, entrando pela janela, trazida pelos secretos desejos, pelas forças da natureza, um destino escrito e cumprido entre os que se buscam respondendo a enigmáticos chamados...
O vento sopra forte agora...
Tão sensuais os movimentos da roseira... Rosas desabrocham... Há um expor-se e oferecer-se ao beija-flor... A rosa favorita encontrada. Fim da busca? Ou colhida a rosa preferida, outras rosas viriam, num infinito procurar de rosas desejadas? Suga a rosa mais querida... Que se desfolha... E com ela a própria vida? Tombará por fim sob a tristeza do pálido luar? Sob os apelos do sereno em lágrimas desfeito?
Volta à floresta o saciado beija-flor...
Já não há sol... Que as nuvens escuras trazidas pelo vento encobriram... Trovões ameaçadores se sucedem... Pressente na agitação da natureza e de si próprio que é chegado o momento do encontro... E no imprevisto cenário, nunca imaginado... Há um frenético bater de mãos nos vidros da janela... E então a vê chegar, dobrada e sofredora, molhada e suplicante, a sonhada bem amada, os braços estendidos... Tão oposto da imaginada figura sedutora... E talvez por isso mesmo mais querida... Que ele ampara e leva ao leito... E entre afagos e sonhos realizados, um frenético beija-flor e uma rosa desfolhada...
Desfaz-se o cenário. Sonho ou realidade, se pergunta ele? Não sabe... Que importa? Viveu momento de paixão... É o que conta... Talvez por instantes a outro mundo levado, na enigmática intersecção de tantos universos... Na busca do beija-flor, a sua própria busca... Um beija-flor e uma rosa desfolhada... O homem desejoso e a mulher encontrada... Cumpriu-se o que os astros decidiram? Conhece enfim o sentimento que chamará de amor...
OS GRITOS DE AÚA
Vê o mar em frente... E na linha do horizonte, o céu se fazendo mar, que brancas gaivotas sobrevoam... Vôos de liberdade...
Fixa o olhar nos braços do Cristo Redentor...
Da rua, chegam as vozes das crianças inalcançáveis em seus jogos infantis. Isolada pelo muro do preconceito, a menina excepcional se perde entre as vozes confusas do rádio sempre ligado, prisioneira da incompreensão familiar, o mundo só entrando pelas frestas da janela, de onde partem seus gritos: aúa, aúa, aúa...
Chamavam-na de “Aúa”.Aúa é o grito-símbolo da minha infância.“Aúa” é a rua sem saída, terminando nos muros da mansão do banqueiro do jogo de bicho...
“Aúa” é o apelo da liberdade negada, o passeio na pracinha, o mundo lá fora transbordando de sensações... “Aúa” é o cheiro recendente do bolo de fubá, o perfume dos jasmineiros, as vozes infantis nas brincadeiras... “Aúa” é o colorido dos flamboyants que sombreavam as tardes quentes da minha infância... “Aúa” era a curiosidade, o medo dos gritos da menina saídos das frestas da janela, pegando-me desprevenido, quando, fugindo da vigilância da ama, caminhava sozinho até os limites da tinturaria.
Nunca vi “Aúa”. A imagem que guardo é de felizes meninas pulando “amarelinha” ou, cabelos ao vento, indo e vindo na calçada em suas bicicletas. Aúa nunca estava entre elas. “Aúa” era um som... O grito do inconformismo.
Sem “Tarik” e “Pipoca”, o casal de fox-terrier quesaudava meu pai na volta do trabalho, deixei a rua sem saída, mudando algumas quadras adiante para o casarão de minha avó materna, cega e bondosa. O casarão já não vivia o seu apogeu, com as paredes aqui e ali descascadas. O casarão onde, na biblioteca, o tio esquizofrênico acumulava em grande desordem volumes e traças. Lá, eu acordava com o cantar dos pássaros e dormia ouvindo o pio da coruja, o agitar do vento nos salgueiros, o eco de passos no corredor.
Era um tempo mágico, impregnado pelo aroma da bananada feita no tacho de cobre no fundo do quintal sob o comando da avó acertando pelo olfato o ponto.
Era um tempo de histórias e fantasmas. Das fugas de Honorina, o bicho-preguiça, para o quintal do vizinho “Cuco”, que aparecia na janela gritando que fossemos buscar o pobre animal inofensivo para que voltasse ao ipê do quintal, onde me aboletava num dos galhos para ver através da janela do banheiro as mulheres se banhando.
E era tempo de colher frutas no pomar do casarão, disputando com pardais, rolinhas e morcegos em vôos arrojados, as mangas, carambolas, abios, sapotis, ameixas, abacates... Tempo de brincadeiras, de quedas das árvores, algumas terminando por levar-me ao Pronto Socorro pelas mãos aflitas de minha mãe.
Alfabetizado muito novo no ginásio fundado do meu avô, lia os jornais, atendo-me ao diário de “Giselle, a espiã nua que abalou Paris”, publicado num vespertino.Tempo das manchetes de uma guerra só sentida pelo racionamento do pão de tostão da “Padaria Colombo”, uma homenagem equivocada do “seu” Joaquim ao descobridor do Brasil.
Tempo ainda da mansão do banqueiro tornada centro de recrutamento da Força Expedicionária Brasileira. E de conversa de adultos sobre os valores nutritivos das batatas que alimentavam famílias inteiras durante a guerra, a justificar a sua presença sempre à mesa, fossem fritas, cozidas ou assadas. Tempo dos meus pesadelos com os ratos que infestavam o casarão, influenciado pelas narrativas de que serviam de alimento aos guerreiros famintos.
Estranho mundo que fazia guerras pela paz, formando novos impérios. E despersonalizando povos milenares em suas tradições.
Crescendo, fui ganhando o mundo negado a “Aúa”.
Pelas mãos de Orumba Paracatu Mandina, neta de princesa escrava e “filha de criação” do meu avô para serviços domésticos, conheci a espuma do mar de Copacabana que iria curar-me das crises de asma. Orumba de canto triste, que ganhara a liberdade pela Lei do Ventre Livre, vindo a morrer de nó nas tripas depois de sofrida prisão de ventre.
- Ô, menino, vai comprar manteiga, lá na Travessa do Ouvidor...
A ordem partia de minha avó ou de uma das tias e trazia a emoção da longa viagem no sacolejar do bonde, com baldeações no Tabuleiro da Baiana. O troco virava suco na “Laranjada Americana” ou caldo de cana no Hotel Avenida.
No Largo de São Francisco, buscava com meus olhos de criança o clarão do incêndio do Park Royal em que tantos haviam morrido, aprisionados pelas portas trancadas, num inferno de fogo e de celulóide dos brinquedos que traziam sorrisos às crianças. Lá estava apenas o espaço vazio ao lado da Igreja de São Francisco. O santo me parecia descuidado pela quantidade de fiéis mortos.A vida se alongava...
Sepultos, agora, os trilhos, tirados da paisagem carioca os bondes lotados dos alegres foliões nos carnavais de confetes e serpentinas.
E enquanto os gritos de “Aua” ainda ecoavam, no sacolejar da História, a Ciência avançava para o Bem e para o Mal, a penicilina curava milhares de vidas, que a era atômica aniquilava em Hiroshima e Nagasaki. Sabin com sua vacina nos livrava de muletas e cadeiras de rodas as novas gerações, mas que voltavam a ser ocupadas pela velocidade imprimida aos veículos por um mundo que queriam mais moderno ou das balas de armas cada vez mais sofisticadas e mutiladoras.E no casarão, os gritos dramáticos do tio esquizofrênico. Que não o internassem no sanatório onde choques elétricos o devolviam mais gordo e manso dos surtos do seu mal.
Médico homeopata era o tio quem curava os moradores do casarão das doenças, com o “Alium Sativum” ou o “Nosvômica”, de sua farmacopéia mantida numa caixa com o título de doutor que fez por merecer.
Bengala e guia da minha avó, era eu quem, trôpego de sono, a levava á missa das cinco, para pedir perdão pelos pecados que não tinha. Era o meu calvário na direção da cruz da Matriz, cumprido religiosamente todos os domingos e que me dava o direito de ser o guardião da chave da gaveta da escrivaninha dos mil réis e do guarda-casaca onde, entre peças do seu enxoval, estava a latinha de caramelos com que ela premiava os bons feitos dos netos.
“Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco...”
Muitas eram às vezes em que, convocado, sentava ao seu lado para a Hora da Ave Maria, na voz de Julio Louzada. Não seguia as rezas, mas ficava aguardando a “Ave Maria” de Gounod que encerrava o programa.
“... bendita sois vós...”.E nem poderia deixar de ser, pensava.As orações eram agora dirigidas pelo padre, enquanto os círios queimavam e o espermacete escorria como lágrimas. No salão forrado de azul com flores de Lys douradas, o caixão com vovó vestida com o hábito da Irmandade do Carmo a que pertencia. Uma grande cruz de prata reluzia à sua cabeceira. Na parede, o par de quadros retratando meus bisavós cujos olhares pareciam acompanhar as reverências à filha morta. Em suas mãos, o terço de ametistas trazido de Roma por um dos filhos, junto com a absolvição plenária concedida pelo Papa Pio XII, conforme documento emoldurado em seu quarto. A decisão de enterrá-la com o terço foi tomada por eu ter dito ser esta uma de sua vontades. Mesmo não sendo verdade, vovó merecia.
Lá fora, o cocho de penachos negros e a longa fila de carros aguardavam o fim dos trabalhos. Desci pela última vez as escadarias de mármore do casarão.
Anos se passaram...
Retornei à rua sem saída e ao casarão. Queria de volta a minha alegria infantil, o cheiro da bananada, o sabor da manga madura apanhada no pé... Fui em busca do meu sorriso espontâneo, minhas solidões, meus silêncios e minhas lágrimas... Meus medos inocentes das sombras projetadas pela luz da candeia...Por onde andariam os fantasmas escondidos nos cantos escuros de tábuas que gemiam à noite, o pio da coruja, o ranger das portas, o farfalhar do salgueiro, os passos ouvidos no corredor?Que retornassem com meus sonhos, dúvidas e desatinos, querências que me foram arrancadas sem consulta... E a menina de trança que ria do meu amor primeiro...Que fora feito da espera dos cometas que não vi, das estrelas que fiz minhas, dos horizontes azuis aonde não cheguei?Queria de volta as crenças em promessas não cumpridas, esperanças e devaneios... E o grito de liberdade de “Aúa”.
Queria o futuro que meu passado prometeu.
Só encontrei escombros...
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